sexta-feira, 27 de julho de 2012

Nerudan




Gosto quando te calas porque estás como ausente 

e me escutas de longe; minha voz não te toca.
É como se tivessem esses teus olhos voado,
como se houvesse um beijo lacrado a tua boca.

Como as coisas estão repletas de minha alma,
repleta de minha alma, das coisas te irradias.
Borboleta de sonho, és igual à minha alma, 
e te assemelhas à palavra melancolia.

Gosto quando te calas e estás como distante. 
Como se te queixasses, borboleta em arrulho.
E me escutas de longe. Minha voz não te alcança.
Deixa-me que me cale com teu silêncio puro.

Deixa-me que te fale também com teu silêncio 
claro qual uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão remoto e singelo.

Gosto quando te calas porque estás como ausente.
Distante e triste como se tivesses morrido. 
Uma palavra então e um só sorriso bastam. 
E estou alegre, alegre por não ter sido isso.


Pablo Neruda

sábado, 21 de julho de 2012

Dialogando com o Ego



Eu me sinto numa selva escura. Cheia de insetos e animais cujas capacidades e ameaças desconheço e no entanto, temo. É como se só houvesse uma pessoa no mundo: Eu. É como se buscar ajuda fosse a expressão máxima da minha loucura. 

Pois pensem comigo: se sou a unica pessoa no mundo, procurar ajuda seria delírio, não acham? Pois bem. O nome disso é estresse [?] . 

(Como é que a minha genética, criação, valores culturais e redes neurais determinam essa estranha sensação?)

É uma expectativa constante de humilhação em praça pública.

Mas  não entendes que o 'sentir-se humilhado' depende do seu próprio conceito de humilhação? E que portanto, os fatores que determinam a possibilidade de ser humilhado depende dos seus preconceitos?
Sim. Eu entendo tudo isso perfeitamente. Já dizia Clarice 'pensar é um ato, sentir é um fato'. Penso e não sinto. Meu ego enorme foi desmascarado de forma sutil e brutal. Ele se sente só, desamparado e ansioso. ANSIOSO. ANSIEDADE.

Querido Ego, se tu já fostes desmascarado, o que tens a temer?
Eu te respondo minha querida. Temo a desindividuação, a desindividualização. Temo nadar nesse mar sórdido de igualdade. Nessa lama branca de hipocrisia, nesse mar silente, remitente, fraco, ausente, compassivo, inutil desgraçado e óbvio.

Óbvio? Que entendes por óbvio ego? Que há de mais óbvio no orgulho ferido ou no egoísmo disfarçado?
Há muito que tu compassivamente não compreenderias. Há muito que tu caridosamente ignorarias, uma vez que ser, em toda sua potencia ÚNICA, 
veja bem, única e tambem exclusiva, é incompreensível para ti. Com essa mania universalizante.
Isso me dá náusea. Esse 'amor' todo, essa paz deprimente. Essa luz que tu jamais lograrás alcançar.

E que assim o seja Ego pois tens o dom de veres o mal onde só há luz. Isso advém da tua mente pequena, da tua necessidade de aparecer, de te estabelecer, de TER, de ter espaço, posses, propriedades, coisas, objetos nos quais possa te agarrar, te projetar . Entendes?
Creio que entendo. Por que será?

Porque ainda há muito orgulho em ti que precisa ser elaborado. Sua 'admiração' precisa urgentemente tornar-se admiração e não inveja disfarçada ou sensação de incapacidade. És forte, belo e maravilhoso, não precisas sentir-te sozinho. Todos somos acompanhados e cuidados. Porque um só são muitos e um dia muitos serão um só. O apoio interno necessita articular-se adequadamente com ele mesmo para buscar apoio externo, é preciso coerencia no pedir.

´



As sementes que você plantou no solo semi-árido da minha ignorância florescem a curtos e incertos passos.
O sonho da perfeita dissonância não é apenas fruto da pressa e sim, produto da arte extrínseca, da arte espremida, calculada gota a gota! Deixa-nos dispnéicos pálidos e tontos! Faz todo e ao mesmo tempo, nenhum sentido. Memória que sonha por um abrigo! 
 Pois nao ha tempo nem espaço; chegamos ao limite ! 
Há um limite? Há energia, muita energia escura em expansão, pronta para implodir o que lhe é externo ! Vestir o universo do avesso, com a branca cor do recomeço! Com as nada cândidas erupções estelares... Com o louco do Newton achando que o espaço é estático, e o louco do Einstein achando o contrário e o pior, ambos estando certos em seus universos paralelos. E continuamos ignorantes.