sábado, 23 de julho de 2011

Andando pelo mundo.



Eu não sei o que há, quando ando na rua sozinha uma sensação de liberdade e completude me invade. E dai? E dai que é um dos poucos momentos da vida que me sinto livre, dá vontade de sair correndo e não voltar.
Voltar pra onde se não sei onde eu estou? Voltar para o quê se não concebo o que sou? Não quero pensar e entender o que há. Não quero seguir o caminho da trilha, e nem o encontro marcado. Quero o louco, o inesperado, o amor contrário com ódio e desatino. A bagunça de uma vida de quem só sonha e nada faz. De quem se realiza de circunstâncias e nada mais.
Queria andar, sem ter pra onde ir, queria ter pra onde ir sem ter que pensar por onde andar. Enfim. Quero o caminho sem respostas, uma paz sem perguntas. A paixão de quem confia na maré, de quem ama sem máscaras ... De quem cai nos abismos de se deixar levar!
Nos abismos da felicidade: queda livre, emocionante, intensa, divertida e efêmera. Mas que obviamente, com muita dor, ao final, quando encara o chão, vê a alegria do caminho desaparecer, porque chegou à realidade.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Pseudo-Futuro- passado livro.

Capítulo 1

Amor, hoje começa a secreta caminhada ao enredo do infinito que se perde no abismo do meu ser desconhecido. Minha personagem é a persona do meu eu-inferior, completa em sua ardente paixão e em seu deprimente torpor.

Hoje, ela se acha enganada e iludida, destratada e desvalida, mas ela sabe que isso é apenas aquele engraçado sentimento do passado reconhecido no futuro. Ela quer e precisa entender essa necessidade de ser e não-ser, integrar e não - integrar.

O que a leva a questionar o conceito de ser já que ela considera que é, mesmo sem saber o quê? Mas a consciência de ser não é uma prova do que já se é? – Ser é estar ou existir? – Ser feita da matéria antiga de todo cosmos, ser-pensante-alucinante , apavorante .

Não-compreensão de si mesma.

E ela só, filosofa mesmo por saber que não terá certezas.

Ela descobriu que para entender o conceito de ser ela precisa fazer parte dê... – qualquer coisa que ela julgue diversa dela mesma, qualquer coisa na qual ela não se reconheça. Naquilo ou naquele. Algo que ela julga externo, e que para entender ela deve se ver no que ela não é, como na demonstração pela negação mas que acaba virando confirmação, já que é subjetiva, pois a clareza de ser tudo e todos não é demonstrável, é sensível.

(E hoje ela não quer facilitar a prosa) que ser prosa poético-insana-estética.

Capítulo 2.

Então, foi em busca da realidade:

Quis conhecer e pegar no que era tido como verdade.

E conheceu alguém,

no meio de mar de gente, de idéias, personas e personalidades navegou imprecisamente, procurando o preciso.

Mas ela nunca tinha certeza do que via, ela só deixava ser e depois analisava...

E um dia, deixou aquele Ser, ser junto com ela e andaram com as mãos atadas à existência, julgando-se livres pelo espaço cósmico do pensar. Como num sonho surreal, ela teve um insight com cores e imagens.

Como na inspiração, em que todos os elementos da imaginação e realidade se fundem para criar a supra-realidade. Ela se fundiu com ela mesma e viu que era alguém. Mas alguém em outro alguém? Sim, ela se viu naquele Ser, que ela deixou estar para analisar. E ela foi.

Nunca tinha pensado que ser era estar com --- e esteve completa quando percebeu que era, junto dele, ou Dele. Ele podia ser a manifestação do divino, ou podia ser só ele, que era divino por que era. Sentiu uma alegria pura da beleza de quem só é, de quem não é mais o que se fez de si e o que os outros fizeram dela, pureza de quem foi, e não de quem se fez.

E todos somos, mesmo quando não queremos... Somos nós e os outros, por isso queremos os que se parecem conosco, pois em parte eles nos são e vice-versa.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Se eu Fosse Eu - Clarice Lispector

"Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como?não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais".
(Texto extraído do livro A Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, editora Rocco, pg. 156)