sexta-feira, 27 de julho de 2012

Nerudan




Gosto quando te calas porque estás como ausente 

e me escutas de longe; minha voz não te toca.
É como se tivessem esses teus olhos voado,
como se houvesse um beijo lacrado a tua boca.

Como as coisas estão repletas de minha alma,
repleta de minha alma, das coisas te irradias.
Borboleta de sonho, és igual à minha alma, 
e te assemelhas à palavra melancolia.

Gosto quando te calas e estás como distante. 
Como se te queixasses, borboleta em arrulho.
E me escutas de longe. Minha voz não te alcança.
Deixa-me que me cale com teu silêncio puro.

Deixa-me que te fale também com teu silêncio 
claro qual uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão remoto e singelo.

Gosto quando te calas porque estás como ausente.
Distante e triste como se tivesses morrido. 
Uma palavra então e um só sorriso bastam. 
E estou alegre, alegre por não ter sido isso.


Pablo Neruda

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